Como criar um personagem com profundidade – Parte 02

View Comments

Segue abaixo a continuação de uma série de posts que tem como objetivo ajudar na construção de um background rico e detalhado. Divido com você algumas dicas úteis sobre RPG, vindas de um mestre que já está há 10 anos rolando dados… mas ainda assim o Prof. Nerd ainda é o mais velho em matéria de RPG… XD

Seguindo…

2º Passo: História

Conforme comentado no post passado, os questionários a seguir servem para refletir sobre como desenvolver alguns aspectos da vida do seu Personagem.

Onde seu PC nasceu e cresceu?

Para começar, é interessante fazer um estudo sobre o lugar onde seu PC nasceu. Se o jogo é na Terra, estude sobre o país de origem, se o jogo é em algum cenário escolhido pelo Mestre, aprenda sobre o reino de origem de seu PC (e é bem fácil estudar um reino de Forgotten Realms, por exemplo, é só abrir o livro no Sumário, procurar pelo reino que com certeza você já escolheu antes, porque queria ganhar um item X por nascer ali!).

Gosto muito de indicar o cenário brasileiro Tormenta (tanto para quem está começando quanto para os velhos de mesa) porque, em questão de regiões, o Tormenta “dá de 10 a zero” em muito cenário importado por ai, aqui cada nação tem uma característica única que é muito diferente da outra. Então, se você deseja fazer um PC que adora intriga e corrupção, basta nascer em Ahlen, e assim você terá muitas e muitas referências sobre como um habitante padrão de Ahlen pensa ou age (e sabendo do padrão, você pode “despadronizar” ao seu critério tudo que achar necessário).

Outro detalhe a se pensar e desenvolver pode ser que talvez teu PC tenha vivido parte da vida numa região e parte noutra, aprendendo assim os maneireismo de uma nova terra em conjunto com o seu. Como no exemplo acima, e se o nascido em Ahlen se mudasse para Namalkah, o reino dos cavalos, ele poderia vir a se tornar um apostador trapaceiro em corridas de cavalos.

(Nota do VagnerD que também mestra: Antes que algum player venha reclamar a você mestre que está agora na frente do computador por ter que estudar sobre algum reino que não conhece (ou si quer existe!), diga a eles, caro mestre, que está cansado de players preguiçosos, que enquanto os players estudam um reino para um PC, o Mestre estuda cada reino por onde os PCs de vocês passam, e depois ainda, tem que estudar os reinos de onde os players afirmam ter vindo. O rpgista está a um passo a frente da evolução humana, por isso que nosso hobby favorito nos dá tanto trabalho, porra!)

Como é (ou foi) o relacionamento de seu PC com sua família?

Muita gente esquece que PC tem família: pais, irmãos e responsáveis. Geralmente, não comentamos (eu também cometo essa falha) sobre eles no background por acharmos que “não vem ao caso, vamos matar goblins duma vez!” a família é muito importante e ajuda a entender melhor o passado do seu PC, talvez com um bom enredo seus parentes possam aparecer futuramente na Campanha (isso se sua idéia de Família não for exagerada como ter um irmão Anti-paladino e outro Algoz, ambos de nível 20! Sem nunca escrever um background sobre eles, como você pode querer que o mestre os ponha em jogo? Mesmo com um histórico bem detalhado, acho difícil um Mestre aceitar tal família para um PC do jogo).

Mesmo que você não tenha tido um relacionamento familiar tão tenso quanto esse acima mencionado, é importante para seu PC que, em sua história, conste o seu detalhes sobre seus pais, por mais simples que seja, e para isso você terá que estudar sobre o reino em que nasceu para entender como pensa uma pessoa/família comum do seu reino de origem, a não ser é claro que sua família não seja comum também, e se não for é importante que você detalhe como é sua família. Parentes estranhos podem trazer um arco enorme de histórias à mesa (e quem já leu a HQ Preacher, sabe do que estou falando).

Pode-se incluir, caso deseje amigo rolador de dados, como relacionamento familiar os filhos ou a esposa de seu PC; isso se ele não for jovem demais para isso (alguém ai falou no Goku?)!

Seu personagem possui algum Amigo/Rival?

Essa é ótima! Seu PC PODE ter um amigão do coração que ele irá proteger até a morte (em alguns RPGs, essa regra é abrangida pelo defeito Protegido ou Protegido Indefeso) e que pode ser um membro do grupo ou um NPC do mestre; ou pode ter um rival de combate, ou no amor. Há muitos exemplos que estão dando certo de grandes parceiros ou rivais (como vemos no relacionamento Legolas x Gimli, ou, mais recente ainda Naruto x Sasuke. ). E esse amigo ou rival pode ser de infância ou conhecido recente. Caso decida ter um amigo/rival convém explicar no background como esse relacionamento nasceu, e se esse relacionamento estiver “enganchado” em outro aspecto da história do seu personagem mais sólida será a história dessa amizade.

O que seu PC fazia da vida antes de ser um Aventureiro?

Por exemplo, Belian, o personagem do filme Cruzadas (Kingdom of Heaven, do diretor Ridley Scott) era ferreiro antes de se tornar um Cruzado (muitos pensam que ele era Templário, um grande engano histórico!) e sair para se aventurar no Oriente.

Geralmente, um personagem de D&D terá mais de 15 anos, o que, no jogo, o torna um adulto. Bom, se ele é um adulto O QUE ELE FEZ DURANTE SUA BENDITA INFÂNCIA E ADOLESCÊNCIA?

Você pode alegar que ele é rico e que nunca precisou trabalhar, mas ainda assim ele fez algo que o possibilitou atuar com a Classe de personagem que ele possui hoje. Se ele é Clérigo talvez tenha passado a infância no internato, se é Mago pode ter estudado com um tio bibliotecário a adolescência toda, se é Ladino pode ter sido mendigo, ter uma infância triste a aprendido a roubar para sobreviver… Contar como foi esse período da vida de não-aventureiro é interessante porque mostra o quando seu PC desenvolveu-se ao logo da vida, ou seja, ele não surgirá do nada, ele tem um motivo para ser o personagem que é!

Existem duas Perícias no jogo de D&D que definem se você realmente teve (ou tem) alguma profissão antes de se aventurar, elas são Profissão e Ofícios, se está certo que seu PC fez algo da vida, certifique-se de ter essas perícias. Pensando bem, é importante verificar toda e qualquer perícia que estiver ligada a um estilo de vida (imagina se você não colocou prestidigitação ou furtividade para o seu menino mendigo que se tornou ladino? – algo raro, eu sei!). Claro que em D&D é difícil de cometer essa falha, mas em Vampiro, por exemplo, onde você é livre para escolher suas pericias, é incompreensível termos um Médico sem a Habilidade Medicina, por exemplo.

E por que raios ele se tornou um aventureiro?

Essa é bem simples, e monta as motivações do seu PC, por que diabos você decidiu ter uma vida de perigos e aventuras enfrentando toda um sorte de monstros “inimagináveis”? Não seria mais simples se seu personagem ficasse em casa e tivesse uma pacata vida de carpinteiro?

Por mais que seu PC tenha um forte senso de justiça ou de aventura, explique de onde veio essa vontade, quem ou o que o incentiva? Pode ser alguém que ele ame, que ele admire, pode estar nessa porque procura algo ou alguém? Muita coisa legal nasce nessa etapa da criação do Personagem.

Qual a sua Fé/Religião?

E o porquê disso! Seu PC escolheu seu deus de admiração (ou devoção para Clérigos) ou o segue porque seus pais assim desejaram? Talvez ele nem goste de seu deus mais todos no seu reino. Ele pode se sentir deslocado vivendo em uma sociedade onde o que é mais admirado são conceitos inadequados (ou Banalizados) para o paradigma do seu Personagem (alguém aí falou Brasil? XD).

E se o PC não reconhece deus algum? Pode ter um pensamento ateu, e defender suas idéias céticas quanto à inexistência de deus algum.

Outra idéia é que seu personagem pode ter outro tipo de caminho espiritual que para ele será uma fé: a natureza, o universo ou o caminho para que você alcance a divindade através de si mesmo! (Nossa essa foi f*&%#@!)

Nota do VagnerD: religião vem do latim religare, que significa religar algo, ou seja, ligar algo a alguma coisa que não está mais ligado a um todo.

Por que escolheu essa Classe?

Mesmo que sua Classe seja comum à sua raça, porque cargas d’água você se tornou um Elfo Mago? Ou um Anão Guerreiro? Ou um Meio Orc Bardo? Ou um Tanagariano Psiônico? Pode ser por vontade própria ou externa (a vontade de deus, do pai, do papa). Outra dica é você querer seguir os passos de uma pessoa em específico, emulando até mesmo sua profissão ou classe para tal feito.

3º Passo: Objetivos

Qual o objetivo principal de seu personagem?

Seja vingança, fama, ouro, seu PC tem algo que o conduz, algo que o motiva a continuar lutando dia após dia? Algo que o faz querer enfrentar um dragão vermelho, com toda certeza é um objetivo que conduz sua vida! E se ele não tiver um objetivo principal, mas sim, vários menores? E, porque diabos você quer tanto obter ou cumprir seu objetivo? Seu PC sabe o que vai enfrentar para obter o que deseja? Se não souber como jogador eu tenho certeza que você deve saber, então, exponha isso, não deixe para o Mestre toda a diversão de criar os perigos que seu personagem certamente irá encontrar.

Seu Personagem possui algum inimigo mortal? Por quê? Como foi que isso aconteceu?

Grandes heróis muitas vezes têm inimigos que estão ligados diretamente com a história do mesmo, vide Superman e Lex Luthor, Luke Skywalker e Darth Vader. E por que com você não ocorre o mesmo? Por que deixar para que o Mestre crie o seu supervilão? Qual é a graça disso?

Seu inimigo está ligado a um deus oposto ao seu?

Ele sabe de seus objetivos? Ou tem o mesmo objetivo que o seu? Ou talvez o seu objetivo atrapalhe os planos do seu super vilão?

Qual seu maior medo?

Sim! Aqui vai algo que é difícil de lhe dizer, mas deve ser dito. Estamos humanizando o D&D e por isso, seu PC DEVE E TERÁ medo de algo. Sabemos que o D&D não possui um sistema de defeitos, para que você compre uma fobia e resolva essa situação, mas pense comigo, você não tem o talento Coragem Total (talento disponível nas versões “3.X” do Tormenta D20) e por isso tem algo no interior de sua alma que com toda certeza o perturba. Pense em coisas simples: medo de cobras, de altura, de lagostas. Ou em situações: estar trancado, não enxergando… Alguns players cometem o erro de achar que não têm medo de nada e por isso seus PC também não o terão, estão enganados, mesmo o mais valente dos heróis humanos pode e deve ter medo de algo.

Uma solução pode ser ter dependentes e ter medo que algo terrível aconteça a eles. Como explicado anteriormente com a regra do Protegido.

Só que existe algo a se pensar aqui, se você tem protegidos por que se aventura mundo afora? Não seria muito melhor ficar em casa e protegê-los pessoalmente? Ou talvez esse protegido seja outro PC do grupo que também está se aventurando?

No próximo post definiremos a Personalidade como um todo de seu personagem, junto com sua Descrição Fisica e os toques finais.

Nesse mesmo Batblog…

Esta entrada foi publicada em RPG e marcada com a tag , , , , , . Adicione o link permanente aos seus favoritos.
  • Flávia Santos

    Oi de novo!
    Bah, eu já tava estranhando a demora no seguimento da coluna. A ideia de fazer um guai prático para como cirar um personagem é muito boa!
    Dicas muito pertinentes, em todos os sentidos. Gostei muito de salientares que o personagem precisa ter um background familiar, mostrando sua infancia. Tem gente que diz “Ah, mas o que me importo que o cara nasceu numa vila a beira-mar?!”, por exemplo, mas acaba que esse pode ser o motivo pra que ele saiba nadar muito bem, suponhamos. Esse tipo de coisa faz a diferença quando se fala de criar um personagem que tu quer que seja lembrado. Outra coisa que eu adorei foi o fato do medo. Tem muito babaca que acha que seu personagem é perfeito e não tem medo de porcaria nenhuma. Cara, se até Indiana Jones tem verdadeiro PÂNICO de cobras, por que o personegm não pode ter medo de, sei lá, raios?! Outra dica muito boa!
    Estarei esperando pela parte 3, falando da personalidade. Estou gostando muito mesmo das dicas e vou imprimir elas pra ter sempre a mão.
    Abração e até mais!!

    Flávia Santos, 17 anos
    Porto Alegre – RS

  • Vagner Abreu

    Olá Flávia.

    É simplesmente ótimo ler que vc está gostando destas dicas.
    Como gosto frisar elas vêm de alguém sem experiência no ramo da publicação de livros, mas que conviveu com RPG e literatura por muitos e muitos anos de sua vida…

    Obrigado mesmo pela atenção, é de Comments assim que nos dão mais vontade de escrever.

    Abração e até o nº3…

  • Saitolice

    Cadê a parte 3?

blog comments powered by Disqus