O assunto é polêmico. Não pelas qualidades que o iPad tem ou deixa de ter, mas pelo fato que este está introduzindo uma nova maneira de lidar com mídias até então tidas apenas como físicas: livros, revistas, jogos de tabuleiro, enfim, coisas que estamos acostumados a interagir de uma maneira natural.
Tá, mas qual é a novidade? Já temos dispositivos que funcionam como substitutos para todas essas coisas: Kindle, leitores de e-books estão se proliferando por aí – monocromáticos, coloridos, com teclado, sem teclado, com touch, etc; videogames portáteis que atuam como verdadeiros dispositivos multimídia, rodando vídeos, música e até – com certa dificuldade pelo tamanho da tela – leitores de e-books; sem falar no Microsoft Surface que está trazendo uma nova possibilidade para os jogos de tabuleiro, sem contar as possibilidades de interações sociais que uma mesa multitouch pode trazer.
E o que isso tem a ver com o iPad? Tudo.
O iPad, apesar de ter sido concebido com uma pressa tremenda e, provavelmente, sem supervisão direta de Steve Jobs – lembrando que ele andou doente entre os anos de 2008 e 2009 – é um dispositivo capaz de todas essas funções citadas. Claro que não exerce bem algumas, mas vamos ver isso em seguida. Primeiro vamos ver do que ele é capaz.
Um dispositivo com tela multitoque, retroiluminada por LEDs com uma nitidez não vista até então em leitores de e-books - é a mesma tela que os MacBooks novos utilizam. O aparelho pesa um pouco mais de meio quilo, o peso de dois smarthphones. Tem 24,28cm de altura, 18,97cm de largura e 1,34cm de espessura (para comparar, um N95 tem aproximadamente 2,1cm de espessura). Possui conexão Wi-Fi e, em alguns modelos, 3G. O principal diferencial dele é um processador de 1GHz feito pela própria Apple, denominado de Apple A4 - existem boatos que ele foi “inspirado” nos processadores nVidia Tegra - baixo consumo e alto desempenho, tanto que sua bateria é capaz de durar 10 horas em uso contínuo (lembrado que um note dificilmente passa das 6 horas com baterias maiores).
Imaginem tudo isso em um dispositivo que foi criado principalmente pra acessar internet, ler livros e ver vídeos. Pois é, ele desempenha muito bem sua função. Para se ter uma base de comparação, os modelos mais recentes de smartphones possuem processadores de 500 a 600 Mhz, com exceção do telefone do Google - o Nexus One - que possui o chip Snapdragon de 1GHz.
Mas o principal diferencial do aparelho é o tamanho. Não digo que o iPad seja portátil, mas convenhamos que tentar ler e navegar na internet na tela de celulares requer um certo esforço. E é nesse aspecto que acredito que ele ganha vários pontos. Uma tela de 9.7″ com resolução nativa de 1024×768 e capaz de exibir 16M de cores faz muita diferença.
O mercado não estava preparado para receber um aparelho com essas qualidades, muitas pessoas estão reclamando que ele não desempenha todas as suas funções com excelência, mas é bem provável que, atualmente, ele é sim o melhor aparelho do segmento.
Para os quadrinhos, imaginem quando começarem as distribuições digitais: chega de amassar suas revistas, rasgar partes delas por estar levando dentro de uma mochila junto com outras coisas. A distribuição digital traz uma grande vantagem pois possibilita o download de suas compras a qualquer momento. Nenhuma editora se atentou para esse método ainda, mas observem o Steam e o Direct2Drive - não existe mais venda física dos jogos nesse software e sempre que você quiser poderá baixar os arquivos novamente. Mais recentemente, a Blizzard também adotou o sistema de distribuição digital para alguns de seus jogos antigos (Warcraft III, Diablo 2, Starcraft) e, acreditem, é muito bom não ter que se preocupar com CDs e DVDs arranhados.
Os livros seguem o mesmo padrão de distribuição digital. A principal vantagem dos livros digitais é a não existência da obra física, apenas o dispositivo. No modelo de menor capacidade (16GB), seria possível carregar aproximadamente mais de 1200 livros – imaginando que livros digitais coloridos tenham tamanhos até 50MB. Pense nos jogadores de RPG: livro do jogador, livro do mestre, livro dos monstros, compêndio do arcano, manual do guerreiro, etc. Esses livros somados pesam cerca de 3kg; O iPad apenas 630 gramas.
Outra característica que fará do iPad um grande aparelho é a iTunes App Store. O motivo é simples e vou exemplificar com um lançamento realizado pela Logitech esta semana – 1 à 5 de fevereiro – um aplicativo gratuito que transforma o iPhone em um trackpad que se conecta no seu pc/mac através de bluetooth. Imaginem esse aplicativo portado para o novo aparelho da Apple: teriamos um dispositivo multimídia com capacidade de atuar como uma tablet - Wacom Intuos, Cintiq, etc – pelo mesmo preço que você pagaria um tablet que só serviria como mesa de desenho.
Já no quesito jogos, o iPad tem capacidade de sobra para rodar jogos com gráficos bem elaborados, mas existem dois problemas que gostaria de citar: ergonomia e praticidade. O iPhone teve muito sucesso com jogos pelo fato de seus usuários estarem sempre com ele no bolso e o utilizarem como distração em uma viagem, aguardando em um consultório médico, ou simplesmente matando tempo. O tamanho do iPad é um impeditivo, acredito que não só no Brasil, de utilizá-lo livremente em qualquer lugar, sem contar que, pelo fato de ser mais pesado que um celular e vários jogos utilizarem o sensor de movimento, causaria um grande cansaço e até tendinite nos braços de quem jogar.
Mas existe um tipo de jogo que se beneficiaria bastante da sua tela grande, do seu multitoque e do poder de processamento do Apple A4. Jogos de RTS (Real Time Strategy / Estratégia em Tempo Real) tais como Warcraft, Starcraft, Command & Conquer. Jogar Civilization em um N95 não é nada fácil. Já num iPad seria, suponho, muito mais fácil.
Ainda é muito cedo para criticar o iPad negativamente, tal como muitas pessoas o fizeram durante seu lançamento, mas diante dessas possibilidades que acabei de citar, estamos longe de ver o seu real potencial.


























